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Curiosidades
01. O mestre
pode.
Um forte
amador pediu ao GM mexicano Carlos Torre que analisasse uma de suas partidas.
Torre não queria perder tempo com partidas de capivara, mas o jogador tanto
insistiu que Torre concordou, embora sob uma condição: pararia a análise assim
que constatasse um erro gravíssimo. Ficou combinado. O sujeito começou a mostrar
a partida: 1.e4 e6 2.d4 d5 3.Cc3 Cf6
4.e5 ...Cg8. "Pode parar - disse Torre - esse lance preto é horroroso." O
homem replicou: "Não é bem assim, maestro, a idéia do recuo do cavalo é
sutil. Nimzowitsch, por exemplo, já experimentou esse lance e venceu!" Ao que
Torre respondeu: "Nimzowitsch é um gênio, ele pode jogar isso. Mas você não,
você tem que respeitar as regras de desenvolvimento das peças." Ah se todos nós
lembrássemos dessa história!
02. Nomes
curtos. O jovem
Leonid Stein tinha acabado de perder para o veterano GM Salo Flohr. Para
consolá-lo, Flohr contou uma piada: "Não fique triste. Olha,em breve os nomes
curtos vão ser melhores do que os nomes longos. Veja por exemplo Liliental, um grande jogador no passado.
Agora, quem se destaca é Tal. Com
você vai ser assim também. Em breve, Bronstein vai ter que ceder o lugar para Stein!". Poucos anos depois, a
"profecia" foi cumprida: Stein venceria três campeonatos soviéticos!
03. Com
tabuleiro.
Richard Réti
e Alexander Alekhine encontraram-se no trem e começaram a analisar uma posição
às cegas (sem o tabuleiro nem as peças, só de memória). Depois de alguns
minutos, Alekhine virou-se para Réti e disse: "Olha, todos sabem que nós dois
somos os melhores jogadores às cegas do mundo. Por que então não utilizamos um
tabuleiro de verdade?".
04. Assassino de
si mesmo.
O GM húngaro
Geza Maróczy era conhecido pela elegância e polidez com que tratava a todos. O
GM letão Aaron Nimzowitsch era famoso exatamente pelo contrário, pelo mau humor
e falta de tato com que tratava a quase todos. Certa vez, Nimzowitsch foi tão
ofensivo que Maróczy reagiu convocando-o para um duelo no dia seguinte. O irado
Nimzowitsch não compareceu ao encontro. Justificou-se assim: "Não vou contribuir
para meu próprio assassinato."
05. Grande
fígado. O
GM inglês Blackburne foi um dos mais fortes jogadores do mundo
nas últimas décadas do século XIX. Na lista de suas vítimas,
incluem-se Steinitz, Tchigorin, Em. Lasker, Tarrasch, Pillsbury
e Alekhine. Suas partidas eram especialmente inspiradas pelas
bebidas alcoólicas. Conta-se que ele era capaz de esvaziar duas
garrafas inteira de uísque numa sessão de partidas simultâneas.
Morreu aos 83, idade bastante avançada para quem viveu e bebeu
na sua época. Um grande cérebro e, pelo visto, um grande fígado.
06. Yoga. Aaron
Nimzowitsch descobriu que a prática de Yoga, a milenar prática física e mental
indiana, poderia melhorar seu desempenho nos torneios de xadrez. Experimentava
os movimentos do yoga nos próprios torneios. Enquanto o adversário meditava em
busca do lance, Nimzowitsch ia para o chão e colocava-se de cabeça para baixo.
Acreditava que desta maneira o sangue desceria para o cérebro e ajudaria a
pensar melhor. Algumas vezes esse troço funcionou muito bem. Mas desconfio que
se você não for Nimzowitsch, não fluirá tanto sangue assim para sua cabeça.
07. Melhor para
ele.
Partida
amistosa de uma amador contra um forte jogador. Ao amador dirigiu-se a Emanuel
Lasker, que observava o jogo, e perguntou: "Qual o melhor lance nessa posição?".
Lasker respondeu: "Jogue g2-g4." O pobre incauto seguiu o conselho e,
inesperadamente, seu adversário respondeu com a dama, que deu o mate.
Estarrecido, o indivíduo virou para Lasker e perguntou, meio sem acreditar, meio
furioso: "Mas o senhor não disse que essa era o melhor lance?". "Sim - respondeu
Lasker - o melhor para seu adversário." No fundo, essa era a maneira de jogar
xadrez de Lasker: ele encaminhava a partida para posições em que seus
adversários, perplexos, se interrogavam: "essa posição é boa, é óbvio, mas para
qual de nós dois?"
08. Sumiço
da torre. Na
União Soviética havia uma tipo de simultânea dada por dois grandes
mestres que jogavam alternativamente. O GM1 fazia o lance contra
todos os tabuleiros, que, em seguida, respondiam. Era então
a vez do GM2 fazer os lances em cada tabuleiro. Depois das respectivas
respostas, o GM1 retornava e assim a partida continuava. Certa
vez, Averbach foi jogar um lance quando percebeu que estava
com a torre a menos. Mesmo com a posição perdida, ainda fez
dois ou três lances. Depois que a exibição acabou foi conversar
com Bondarevsky: "Como é que você perdeu aquela torre?".
Ao que Bondarevsky replicou: "Ué, eu perguntar exatamente
isso!". Os dois se olharam e perceberam que tinham sido
roubados pelo esperto amador.
09. Endereço do
hotel.
Emanuel
Lasker era um tanto distraído. Certa vez, hospedou-se num hotel e foi ao clube
da cidade. Depois da simultânea e do jantar, oferecem carona de volta para
hotel. Neste momento, Lasker percebeu que não sabia nem o nome nem o endereço do
hotel onde havia deixado suas bagagens. Tiveram que percorrer a cidade inteira
até encontrar o lugar correto.
10. Relógio.
Conta-se que Garry Kaspárov, o "Ogro", como dizem
os espanhóis, tem o hábito de retirar o relógio do pulso assim
que a partida começa. O relógio fica ali, sobre o tabuleiro.
Quando Kaspárov sente que a partida está chegando ao fim e que
ele será o vencedor, pega o relógio e bota de novo no braço.
Uma maneira sutil de dizer pro adversário: "Bom, vamos
acabar logo com isso que não tenho tempo a perder." Pressão
sobre o adversário? Sem dúvida. Mas já houve adversários que,
pelo menos em algumas ocasiões, fizeram Kaspárov esquecer do
relógio.
11. Futebol.
Quem joga xadrez é capaz de jogar futebol? O clichê é o jogador
frágil, distraído e que derruba os objetos em seu redor. Mas
as coisas não são bem assim. O esporte de Ljubojevic era o futebol
e foi por causa de uma longa contusão que ele aprendeu a jogar
xadrez, como já tinha 16 anos de idade (mais tarde, seria um
dos dez melhores do mundo). O GM Peter Leko foi titular de um
time juvenil húngaro. O melhor de todos, porém, foi o GM norueguês
Agdestein. Forte jogador de xadrez, também foi titular da seleção
norueguesa de futebol, autor de um gols importantes. Por exemplo,
na vitória contra a Itália na Copa da Europa. Se o nosso leitor
jamais fez gol contra a seleção da Itália, talvez possa um dia
ostentar o título de Grande Mestre Internacional...
12. Senhoras.
Para os psicanalistas
de plantão: Alekhine foi casado com mulheres muitos anos mais
velhas dos que ele. Certa vez, ainda jovem, foi a um baile.
Havia moças bonitas, frescas e jovens como a primavera, mas
ele não prestou a menor atenção. Mas quando vislumbrou uma senhora
com vinte anos a mais do que ele, Alekhine não conteve a agitação
e fez de tudo para dançar com ela. Seu entusiasmo era surpreendente.
13. Escarlatina. Alekhine
foi internado no hospital de Praga (República Tcheca) em 1942 para tratar de
febre escarlatina (doença transmissível produzida por um estreptococo). No mesmo
hospital o GM tcheco Richard Réti havia morrido de escarlatina em 1929.
Alekhine, que era supersticioso, não achou nem um pouco interessante a
coincidência. Mas sobreviveu para morrer em 1946, em Lisboa.
14. Moscou
1959.
O torneio internacional em memória de Alekhine em 1959 teve
um trio de vencedores: V. Smyslov, D. Bronstein e B. Spassky.
Superam vários GMs, entre eles Vasiukov, Portisch, Larssen,
Filip e F. Olafsson. Smyslov e Bronstein terminaram invictos.
Spassky sofreu uma única derrota, para Smyslov, que venceu o
torneio pelo critério SB. Smyslov tinha sido campeão mundial,
Spassky conquistaria o título dez anos depois. Bronstein havia
empatado o match de 24 partidas pelo título mundial, contra
Botvínnik em 1950. Três gigantes da história do xadrez, dois
ainda vivos, Botvinnik já é falecido (novembro de 2002).
15. Comandante
Che.
Ernesto Che Guevara, o comandante da guerrilha comunista vitoriosa
na Revolução Cubana de 1959, ainda hoje aparece em estampas
de camisetas. Ícone dos anos 1960s, talvez seja menos lembrado
por suas idéias do que por sua imagem de jovem rebelde ("sem
causa"?). Che Guevara era argentino e como tantos argentinos,
um bom amador de xadrez. Existem fotos dele jogando xadrez e
partidas anotadas. Jogou numa simultânea contra contra o fortíssimo
GM Miguel Najdorf e conseguiu empatar ("tablas", como dizem nuestros hermanos
argentinos.)
16. Filatelia.
O xadrez tem recebido centenas de homenagens dos Correios de
muitos países dos cinco continentes, que lançam selos com imagens
dos grandes campeões mundiais. Um dos motivos para tantas atenções
foi a prática de xadrez por correspondência entre jogadores
de todos os cantos do planeta. Entretanto, o xadrez por cartas
tende a desaparecer, substituído pela comodidade (e preço) da
mensagem eletrônica (e-mail). O ex-campeão mundial Anatoli Kárpov
é fanático por coleção de selos, e conta-se que já gastou 60
mil dólares para comprar um selo raríssimo.
17. Apreciando a
partida.
Há um ditado
judaico-russo que pôde ser adaptado para o xadrez: o amador estuda a partida do
mestre e a aprecia três vezes. Primeiro, quando vê a partida. Segundo, quando lê
os comentários. Terceira, quando entende o que aconteceu. (O leitor tem três
chances para sorrir...)
18. Short
e os malucos.
Numa entrevista, o GM inglês Nigel Short comparou os tipos de
stress que atingem as diferentes modalidades esportivas. No
futebol, o jogador se contunde e é tratado por um médico ortopedista
e um fisioterapeuta. E no xadrez? O equivalente da contusão
é o stress, e, em casos mais graves, os distúrbios mentais.
Nestes casos, os profissionais indicados são o psicólogo e o
médico psiquiatra. Entretanto, poucos jogadores são capazes
de admitir a necessidade de recorrer a esse tipo de profissionais.
Existe preconceito ("Psiquiatra é coisa de maluco ou de
madame"). Sensato, Short descarta a idéia de que o xadrez
produza loucos. É o contrário: o xadrez tem alguma coisa que
parece exercer uma grande atração sobre os malucos.
19. Pontapés.
T.
Petrosian e V. Korchnnoi eram rivais há muito tempo na URSS.
Quando Korchnnoi abandonou a URSS e se radicou na Suíça, a rivalidade
parece ter aumentado. Afinal, agora nenhum dois precisava manter
as aparências do "homem novo soviético". O vale-tudo
da Guerra Fria permitia quase tudo. Então, as partidas entre
os dois desenvolviam-se em dois planos. Em cima do tabuleiro,
sangrentos combates produzidos pelo entrechoque das peças de
madeira. Em baixo do tabuleiro, iradas batalhas de chutes, bicos
e pontapés. Dor nas canelas dos mestres e dor na cabeça dos
juízes. Como resolver? Os carpinteiros (que também fazem as
peças...) construíram uma poderosa divisória de madeira para
ser colocada embaixo da mesa que isolou os bicos de sapato dos
dois futebolistas, digo, enxadristas.
20. Sexo
e xadrez. Sexo
é bom antes de uma partida importante? Sexo é bom, claro, mas
será que, mesmo que você termine a performance ainda cedo e
então consiga muitas horas de sono, não haveria um desgaste
físico excessivo? Há quem diga que a diminuição dos hormônios
também reduz a agressividade. Assim, os mais apressadinhos poderão
até dizer que o jogador com mais, digamos, vontade, é tático,
e os que têm menos, digamos, sede, tenderiam a ser posicionais.
Mas há quem replique, alegando estudos freudianos que apontam
os jogadores posicionais como masturbadores, ao passo que os
táticos sofreriam de ejaculação precoce (não sei bem qual seria
o equivalente feminino. Parece que as mulheres são melhores
que os homens inclusive em relação a esses assuntos). Outros
ainda poderão dizer que jogadores táticos apreciam o sado-masoquismo
ao passo que jogadores posicionais preferem sexo oral / anal.
Enfim, o asssunto é polêmico. Com certeza, o leitor encontrará
muitos jogadores que preferem xadrez a sexo.
21.
Frio &
calor.
Nunca
conheceremos as sociedades e suas transformações se nos prendermos a
determinismos geográficos. Mas ainda há quem ache que os russos jogam bem xadrez
porque o país tem um inverno muito rigoroso. Essa tese não se sustenta quando
lembramos que o Canadá e a Noruega são frios pra caramba e nem por isso se
tornaram grandes potências mundiais do xadrez. Cuba é um país tropical e tem
melhores jogadores do que a gélida Finlândia. Capablanca foi um gênio tropical
que derrotou inúmeros mestres de países onde cai neve. É evidente que o xadrez
na Rússia (na URSS, para sermos precisos) conheceu um extraordinário avanço
graças ao apoio do Estado soviético aos programas de educação em massa de
juventude.
22.
Nomes de
aberturas. Os nomes
de aberturas podem ter várias origens: grandes jogadores (defesa Alekhine,
variante Lasker, ataque Panov-Botvinnik, sistema Petrosian, variante
Polugaevsky, contra-ataque Marshall, contragambito Albin, estrutura Maroczy),
países e nações (defesa francesa, abertura escocesa, defesa eslava, abertura
catalã), cidades (variante Scheveningen, variante Leningrado, defesa Cambridge
Springs, abertura vienense, sistema London), nomes exóticos (variante dragão,
gambito elefante, hedgehog - porco espinho, ataque Grande Prix, defesa ortodoxa,
variante Stonewall - muro de pedra, ataque baioneta) ou simplesmente termos
técnicos ou descritivos (gambito de rei, abertura do bispo, defesa dos dois
cavalos, variante cerrada, variante clássica, variante das trocas). Às vezes, as
aberturas recebem mais de um nome. Por exemplo, abertura Ruy López e abertura
espanhola, Giuoco Piano e abertura italiana, defesa Petroff e defesa russa,
defesa escandinava e contra-ataque central, gambito Volga e gambito Benko.
23.
Frio dos
russos. Petrópolis,
cidade fundada por colonos alemães na serra fluminense (Estado do Rio de
Janeiro), está a quase 1.000 metros de altitude em relação ao nível do mar. Nas
noites de inverno, não são incomuns as temperaturas próximas de zero grau
Celsius. Por causa disso, o imperador D. Pedro II costumava passar por lá os
meses de verão. Frio para os brasileiros, mas certamente ameno para os europeus,
e ameníssimo para os russos, correto, amigo leitor? Pois é, no interzonal de
Petrópolis, em 1973, algumas manhãs tinham temperaturas agradáveis, próximas a
10 ou 15 graus. Quem estava na porta do local do torneio (Clube Petropolitano)
pôde constatar, surpreso: os jogadores mais agasalhados, com casacos de peles,
gorros e cachecol... eram os soviéticos! Não deixava de ser engraçado ver
aqueles homens, acostumados com o frio de Moscou e Leningrado, tremerem com o
friozinho da serra a uma hora de carro das praias do ensolarado Rio de Janeiro.
24.
Livro bom.
Bogoljubow
era conhecido pela autosuficiência. Depois de ter escrito um livro muito bom de
xadrez, andou perdendo algumas partidas de torneio. Sua conclusão não poderia
ser outra: "Agora que todos leram meu excelente livro, fica fácil jogar de modo
tão maravilhoso como eu."
25.
Camisa
velha.
Contam
alguns observadores mais atentos (e nós estivemos lá) que durante o interzonal
do Rio de Janeiro em 1979, o soviético Tigran Petrosian jogou todas as rodadas
exatamente com a mesma camisa. Superstição, falta de cuidado ou confiança na
qualidade da lavanderia do Copacabana Palace? Sua esposa, Rona, era conhecida
pelo cuidado com que protegia o marido. Bem, talvez Petrosian tivesse vários
exemplares do mesmo modelo de camisa. Se a roupa ajudou eu não sei, mas o fato é
que no final do interzonal, Petrosian estava entre os três classificados para o
torneio de candidatos.
26.
Nomes
italianos.
Nos séculos
XVI e XVII e Itália viveu um esplêndido período cultural. Nomes como os de
Leonardo da Vinci, Galileu, Michelangelo, Maquiavel e Monteverdi são glórias
italianas e da humanidade. Esse florescimento intelectual certamente explica a
importância dos jogadores italianos de xadrez naquele período. Alguns dos
mestres da época publicaram os primeiros tratados teóricos do xadrez, entre eles
o famoso livro de Grecco. Ainda hoje, alguns termos do xadrez italianos são
empregados por jogadores de todo o mundo e em todos os idiomas. Por exemplo, fianchetto (pequeno flanco), gambito (perninha), ataque Fegatello ("pequeno fígado", certamente
o frágil ponto f7 das pretas), abertura Giuoco Piano ("jogo suave").
27.
Ronda do
animal.
Enquanto o
adversário refletia a respeito do próximo lance, Alekhine gostava de levantar a
cadeira e andar em círculos ao redor da mesa. Parecia um tigre faminto, rondando
a vítima a ser devorada. É evidente que muitos jogadores ficavam perturbados com
essa pressão psicológica. O inimigo que nos observa pelo cangote, depois funga e
caminha apressado em volta do tabuleiro... que coisa desagradável! O soviético
Mikhail Tal também tinha o mesmo hábito. Embora nas relações pessoais Tal fosse
infinitamente mais afável do que Alekhine, sobre o tabuleiro era igualmente
selvagem, um canibal terrível.
28.
Ar
viciado. Mikhail
Botvinnik era capaz das maiores proezas durante a preparação para um torneio.
Como todo não-fumante, ele detestava a fumaça do cigarro. O que fez então? Jogou
várias partidas de treinamento nas quais seu preparador, o GM Ragosin,
propositalmente fumava e dava baforadas bem no rosto de Botvinnik! Isso sim é
que é maneira de enfrentar pressão psicológica.
29. Carecas
e cabeludos.
Quem joga melhor xadrez, os carecas ou os cabeludos? Naturalmente,
a quantidade de material acima do couro cabeludo não tem ligação
alguma com a quantidade de massa cinzenta abaixo do couro cabeludo.
Vejamos: Anderssen, Tartakower, Spielmann, Mikhail Tal e Bronstein
eram todos carecas. Curiosamente, mestres do agudo jogo combinativo.
Lasker, Capablanca, Botvinnik, Petrosian e Karpov todos bem
coroados por cabelos. Os cabeludos tenderiam a dar mais atenção
ao jogo posicional? Timman continua cabeludo. Kasparov não é
calvo, Kramnik até pouco tempo atrás tinha cabelos compridíssimos.
Fischer usava cabelos curtos com topetinho, bem a estilo rapaz
americano anos 60. Mas os anos passaram e ele perdeu bastante
cabelo. Aliás, parece que o fenômeno se repetiu com o nosso
GM Mecking. De qualquer modo, as irmãs Polgar são lindas e,
claro, jamais ficarão carecas...
30.
Mídia. Um grande
mestre soviético ia participar de um programa na tevê de Moscou e estava um
tanto nervoso. Pediu que a Mikhail Tal que fizesse uma sugestão: "O que devo
falar amanhã, Misha?". Tal, sempre muito bem humorado, respondeu: "Diga para que
ouçam o rádio. Estarei dando uma entrevista no mesmo horário!"
31. Rubinstein
e Lasker. Uma dos crenças
mais correntes no xadrez é a de que Emanuel Lasker nunca teria
aceito a proposta de Rubinstein para um match pelo título mundial.
Na verdade, Lasker havia anunciado que enfrentaria qualquer
mestre que reunisse o dinheiro suficiente para a bolsa. Quando
Rubinstein arrumou um patrocinador, Lasker aceitou o desafio.
Mas o fracasso no torneio de São Petersburgo 1914 (ficou abaixo
dos cinco primeiros) e as desgraças provocadas pela primeira
guerra mundial arruinaram as chances do GM polonês. Verdade
seja dita: em todos os torneios em que os dois participaram,
Lasker sempre ficou na frente de Rubinstein. No confronto individual,
o escore foi vantajoso para Lasker também. Emanuel Lasker foi
um jogador extraordinário, e poucas pessoas hoje têm idéia do
quanto era superior a seus contemporâneos.
32.
Instrução. Ninguém se
torna grande mestre apenas com o talento natural. São necessários anos de
estudos de teoria de xadrez, várias horas por dia, dia após dia, anos após ano,
ininterruptamente. Todo GM é também um erudito de xadrez. Mas será necessário
ter educação superior para se tornar um bom jogador? Alguns dos maiores mestres
não apenas terminaram a faculdade como atingiram o mais alto grau de estudo, o
título de doutor (PhD). Foi o caso de Emanuel Lasker (matemática e filosofia),
Euwe (matemática), Botvinnik (engenharia elétrica). Mas também houve fortíssimos
jogadores que chegaram ao topo do mundo enxadrístico sem terem completado seus
estudos secundaristas: Bobby Fischer, Leonid Stein e Tigran Petrosian.
33.
Vitória no
empate. Na última
partida do match pelo campeonato mundial de 1935, o holandês Max Euwe precisava
de apenas um empate para conquistar o título do russo Alexander Alekhine. No
momento em que estava colocando as peças na posição inicial, Euwe esbarrou e
derrubou o próprio rei. Então, dirigiu-se em voz a baixa ao adversário: "Doutor,
aceito o empate a qualquer instante da partida." É óbvio que Alekhine não
poderia concordar com o empate. Todavia, o desenvolvimento do jogo foi
amplamente favorável a Euwe, que conseguiu dois peões a mais em posição
totalmente ganha. Nada mais restou a Alekhine do que aceitar o empate e
cumprimentar o vencedor do match.
34.
Genro
arriscado.
Dois mestres
de xadrez conversavam: "Você sabe, no clube há muitas pessoas que jogam xadrez a
dinheiro, e apostam alto. Meu genro, infelizmente não joga xadrez." O outro
perguntou: "Infelizmente? Ainda bem que ele não joga xadrez! Então, qual é o
problema?". O amigo aflito esclareceu: "Pois é, esse é o problema: ele não joga
xadrez..."
35.
Ele
"enxerga"!?.
O GM alemão
Sämisch dava uma exibição de simultâneas às cegas (sem ver o tabuleiro, jogando
só com a memória). Na platéia, uma linda moça observava tudo com atenção. E
Sämisch, claro, não tirava os olhos de cima da dama. No final da simultânea, a
jovem não se conteve e protestou: "Isso é uma fraude. Ele não é cego conversa
nenhuma. Enxerga tudo perfeitamente!"
36.
Valeu
Haroldo!
O campeonato
brasileiro de 1984 desenrolou-se em Cabo Frio RJ, no hotel Malibu, que fica em
frente à praia do Forte. O torneio foi jogado em sistema suíço, aberto para
todos que tivessem rating CBX superior a 2000. Mas houve uma grande exceção: o
niteroiense Haroldo Cunha dos Santos Jr só tinha rating 1959 e foi autorizado a
participar. Haroldo justificou plenamente a inserção: entre os 67 jogadores,
chegou em 14o /18o lugar, ao lado de figuras notáveis como
o MI Francisco Trois e Rubens Filguth. (* Hoje, o
amigo Haroldo está radicado em Santa Catarina. Foi 5o lugar no
campeonato brasileiro de 2001).
37. Tática
e futebol. Originalmente,
o xadrez é um jogo militar. Não é à toa que utilizamos termos
técnicos militares como estratégia e tática. Estratégia tem
a ver com planejamentos gerais e profundos. Tática está ligada
à execução direta. No futebol, o termo tático tem sido empregado
de forma incorreta. Técnicos e jornalistas confundem tática
com estratégia. O que chama de tática é na verdade estratégia:
colocação dos jogadores em campo, posicionamento do ataque,
tipo de marcação, etc são aspectos estratégicos. O drible, o
passe em profundidade, a batida de falta é que são aspectos
táticos do futebol. Quando o time brasileiro esquece qualquer
"esquema de jogo" e parte para tentar resolver a partir
da habilidade individual de cada jogador, então podemos dizer
que houve um abandono da estratégia em favor dos golpes táticos.
Tal como no xadrez, as surpresas táticas podem funcionar no
futebol, mas o que normalmente garante a vitória é um bom planejamento
estratégico.
38.
Vencendo
Capablanca. Nos
anos 1920s, o cubano José Raul Capablanca foi considerado uma
máquina de jogar xadrez. Seu estilo era quase perfeito. Nenhum
outro sofreu tão poucas derrotas quanto ele. Raros mestres puderam
vencer Capablanca, e somente uma única e exclusiva vez: Botvinnik,
Euwe, Keres, Reshevsky, Réti, Janowsky, Rubinstein... Mais raríssimos
ainda foram os jogadores que conseguiram a proeza de triunfar
sobre Capablanca mais de uma vez. Na verdade, apenas quatro
mestres alcançaram essa glória suprema: Alekhine, Lasker, Spielmann
e Marshall.
39.
Imbecilidade.
Aaron
Nimzowitsch não era exatamente um poço de simpatia. Certa vez, ao ser derrotado
por um mestre a quem considerava muito inferior (Becker), não se conteve e
declarou aos berros, para que todos ouvissem: "Meu Deus, como se explica que eu
tenha perdido para esse imbecil?"
40.
Jornalismo.
Tartakower
foi um forte grande mestre nos anos 1920s/1930s e também um reputado crítico
literário e jornalista. Bom escritor e bom jogador, dizia-se que ele era "o
melhor jogador de xadrez dos jornalistas, o melhor jornalista de todos os
jogadores de xadrez".
41. Do
que entendo. Corria
a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e o general alemão ordenou
que chamassem o garoto prodígio (Wunderkind) polonês para jogar com ele.
Samuel Reshewsky era judeu, mas durante a Primeira Guerra não
existia ainda o nazismo. Muitos judeus lutaram nos exércitos
alemão e austríaco. Por isso, o general não deve ter visto muito
problema em enfrentar o pequeno mestre judeu polonês. Logo iria
se arrepender, porque o menino Reshewsky deu uma tremenda surra
sobre o tabuleiro quadriculado. Depois de derrotar o comandante,
o menino ainda demonstrou sua independência de pensamento: "O
senhor pode entender de guerra, mas quem entende de xadrez sou
eu."
42. Proposta.
No campeonato brasileiro de 1965, Henrique Costa Mecking jogava
com o experiente ex-campeão Olício Gadia. A partida foi suspensa
na última rodada. Gadia estava em posição muito inferior, mas
sabia que Mecking precisava apenas do empate para ser campeão.
Imaginou que o rapaz não iria perder tempo nem correr riscos
desncessários. Por isso, fez a sugestão oportunista: "Proponho
o empate." Ao que Mecking replicou: "E eu proponho
o abandono!". Mequinho tinha apenas 13 anos de idade. Ao
derrotar Gadia, venceu o campeonato brasileiro com 2,5 pontos
na frente do vice campeão (o lendário João de Souza Mendes).
43.
Idioma
materno.
Efim
Bogoljubow era russo de nascimento. Nos anos 1920s estava seguramente entre os
cinco melhores do mundo, como atesta sua esplêndida vitória em Moscou 1925,
sobre Lasker, Capablanca, Spielmann e Rubinstein. Casado com uma alemã,
Bogoljubow saiu da URSS e foi viver na Alemanha. Anos mais tarde, Botvinnik
enfrentou Bogoljubow numa partida de torneio. Num certo momento, Botvinnik
comentou algo com seu ex-compatriota. Distraído, Bogoljubow respondeu em alemão
("Was?"), o que mostra que já não mais raciocinava em russo.
44.
Colaboracionistas. Quando o
nazi-fascismo estendeu suas patas e garras sobre a Europa, inúmeros mestres
aceitaram (ou tiveram que aceitar) participar de torneios patrocinados pelos
senhores nacional-socialistas: Euwe, Keres, Bogoljubow e Alekhine, por exemplo.
Quem foi decente e pôde, tratou de fugir, como por exemplo o alemão Eliskases
(que não era judeu). Mais tarde, a maioria desses mestres tentou se justificar
alegando que jogavam para garantir a sobreviviência. Alekhine, porém, foi uma
exceção. Suas atitudes de simpatia para com os nazistas receberam condenação dos
Aliados depois que a guerra terminou. Como jogador, formidável; como ser animal
político, execrável.
45.
Cavaleiro
andante.
O mestre do
xadrez é um viajante. Desloca-se de um país para outro em busca de torneios
internacionais e prêmios. As mudanças de endereço são inevitáveis. Foi o caso de
Steinitz, que nasceu em Praga, hoje capital da República Tcheca. De família
judaica, seu idioma natal era o alemão. Morou e estudou em Viena, Áustria.
Fixou-se na Inglaterra e, finalmente, nos EUA. Emanuel Lasker também foi
globetrotter. Nasceu e viveu na Alemanha. Morou na Inglaterra, nos EUA, de novo
na Alemanha, fugiu do nazismo e foi para União Soviética, e faleceu nos EUA.
Tartakower nasceu e estudou na Rússia, fez a faculdade na Suíça e o doutorado na
Áustria, representou a equipe olímpica da Polônia e se tornou cidadão da França.
Por causa do nazismo e da II Guerra, muita gente boa se naturalizou argentina:
Eliskases (Alemanha) e Najdorf (Polônia), por exemplo. Os jogadores atuais são
um pouco mais sossegados. Mas também há os que mudam de país: Hort (da
Tchecoeslováquia para a Alemanha), Anand (da Índia para a Espanha). A lista de
jogadores soviéticos que saíram da URSS antes ou depois do fim da nação é
enorme: Kamsky (EUA), Dorfman (França), Jussupow (Alemanha), Alburt (EUA), Gulko
(EUA e depois Israel), Shirov (Espanha), Korchnnoi (Suíça), Krasenkow
(Polônia).
46.
Sem pressa.
Emanuel
Lasker visitou o torneio de Karlsbad, que teve um trio de vencedores: Maroczy,
Alekhine e Bogoljubow. Nos intervalos, Alekhine e Lasker resolver jogar um
pouquinho de xadrez relâmpago, só um pouquinho. O "só um pouquinho" deles durou
doze (12) horas seguidas.
47.
América.
Quem terá
sido o maior jogador do continente americano? Temos que decidir entre Capablanca
e Fischer. Sem considerar os dois gigantes, quem terá sido o maior jogador dos
EUA? Morphy, Pillsbury ou Reshewsky? Os latinoamericanos tiveram grandes
jogadores como o mexicano Carlos Torre, os argentinos Panno e Najdorf (polonês
naturalizado). Porém, para nós brasileiros, o melhor latinoamericano foi com
Henrique C. Mecking. Algum jovem leitor se candidata a ocupar a vaga?
48.
Casados x
solteiros. Casar é bom
para o xadrez? Boa pergunta, talvez tão difícil de responder quanto ter opiniões
definitivas sobre todas as linhas da defesa siciliana. Houve grandes jogadores
que se casaram, e outros que nunca se casaram (Morphy, C. Torre, Schlechter,
Mecking e Fischer). Mas parece que a maioria se casa realmente: Lasker,
Rubinstein, Tarrasch, Capablanca, Botvinnik, Bronstein, Petrosian, Spassky,
Karpov, Kasparov, Keres, todos se casaram. Os solteirões são minoria mesmo. Mas
nem todos ficam casados com a mesma esposa o resto da vida. Tarrasch, Euwe e
Botvinnik foram unigâmicos, mas Bronstein, Capablanca, Alekhine, Spassky, Tal e
Karpov, por exemplo, se casaram mais de uma vez.
49.
Retirada.
Xadrez é
fascinante, mas desgasta muito e nem sempre livra alguém da miséria. Muito
jogador talentoso já abandonou o xadrez. Falta de dinheiro, cansaço ou problema
de saúde (física ou mental) foram os principais motivos. No século XIX, o
americano Paulo Morphy foi o primeiro caso notável de desistência. Largou o
xadrez no apogeu da carreira. O próprio Lasker abandonou o xadrez em 1924 e só
voltou a jogar em1934. Fine era candidato ao título mundial mas se retirou em
definitivo das competições para se dedicar à profissão de psicanalista.
Rubinstein e C. Torre (GM mexicano) tiveram problemas psiquiátricos. O nosso
Mecking abandonou o xadrez com apenas 26 anos, pouco depois de ter se colocado
em terceiro no ranking mundial. O GM norte-americano Tarjan esqueceu tudo para
se tornar bibliotecário, uma profissão com rendas modestas porém garantidas. O
talentosíssimo peruano Granda também abandonou o xadrez e voltou para sua terra,
para trabalhar como camponês. O jovem russo naturalizado norte-americano Gata
Kamsky estava entre os top tem quando deixou os tabuleiros para fazer a
faculdade de Medicina. O grande Fischer, talvez o maior dos campeões, largou o
xadrez depois de ter conquistado o título mundial. Tinha apenas 28 anos de
idade! Ensaiou um retorno vinte anos depois (1992), mas ficou por aí.
50.
Duas
palavras.
Houve uma
época em que os dois maiores jogadores de xadrez da Alemanha, S. Tarrasch e Em. Lasker, quase não se falavam. Poucos minutos antes da primeira partida do match
pelo campeonato mundial, Tarrasch aproximou-se de Lasker e declarou: "Para Herr
Doktor Lasker só tenho duas palavras: xeque e mate." Desgraçadamente, Tarrasch teve
poucas oportunidades para utilizar essas palavras pois Lasker venceu o match com
folga.
51.
Peão
avantajado.
O GM
Bernstein não via Bogoljubow há muitos anos. Quando finalmente o reencontrou, em
Amsterdã, percebeu que Bogoljubow tinha engordado bastante. Bernstein não se
conteve e exclamou: "Puxa, como você ficou gordo. Está parecendo um verdadeiro
peão dobrado!"
52.
Exagero.
O GM Mikhail
Tal viveu às voltas com graves problemas de saúde. Para piorar, não poupava
quantidades de cigarro e de álcool. Em 1969 submeteu-se a uma arriscada
cirurgia. Logo começaram a correr os boatos de que havia falecido no hospital.
Mas Tal continuava vivo e esperto como sempre. Para esclarecer os amigos,
anunciou: "As notícias sobre minha morte são um pouco exageradas."
53.
Sacrifício.
Perguntaram
a Botvinnik sobre o que fazer quando um forte grande mestre sacrifica uma peça:
tomar ou não tomar? Sua resposta: "Se for Tal quem estiver sacrificado, tome a
peça. Se for eu, calcule todas as variantes. Se for Petrosian, recuse." A peça
humorística resume o estilo dos três gênios e ex-campeões mundiais: Tal,
brilhante jogador de ataque, fazia sacrifícios espetaculares baseados apenas na
intuição. Muitos desses sacrifícios eram incorretos mas seus adversários,
confundidos pelas complicações, raras vezes encontravam a saída correta.
Botvínnik fazia sacrifícios baseados em dados racionais, porém, como ele
modestamente admite, era capaz de se equivocar. Petrosian, célebre pela solidez
e pelo instinto para reconhecer o perigo, só faria um sacrifício se tivesse
absoluta certeza da correção.
54.
Lasker e os
jogos.
Emanuel
Lasker apreciava todos os jogos que envolviam algum tipo de raciocínio. Foi um
dos maiores especialistas ocidentais em Go, o estratégico jogo japonês. Também
era bom jogador de dominó e de gamão. Certa vez inventou um jogo de salão que se
tornou muito popular nos lares alemães e austríacos nos anos 1920s. Lasker foi
ótimo jogador de bridge (o "xadrez das cartas"), tendo feito parte da equipe
olímpica alemã. Além de tudo, claro, foi campeão mundial de xadrez por 27 anos
consecutivos, um recorde ainda não igualado.
55.
Loucura.
Os
psicólogos e os médicos psiquiatras já comprovaram que o xadrez não é capaz de
ninguém à loucura. Entretanto, pessoas que já tendem a desenvolver problemas
mentais podem ter seu quadro agravado por causa do excesso das atividades
enxadrísticas. A tensão dos torneios, das disputas e rivalidades é muito
estressante. Nem todos reagem da mesmo maneira. O resultado é que muitos
jogadores de altíssimo nível tiveram que abandonar o xadrez por problemas
psiquiátricos: o norte-americano Paul Morphy, o austríaco Wilhelm Steinitz, o
polonês Akiba Rubinstein, o mexicano Carlos Torre, todos grandes mestres.
56.
Leningrado.
Na Rússia,
em novembro de 1917, operários e camponeses dirigidos pelo partido bolchevique derrubaram o governo provisório
e iniciaram a construção do primeiro Estado socialista da história. A grande
liderança da revolução proletária foi Vladímir I. Lênin, que era um excelente
amador (segundo alguns analistas, teria hoje um rating FIDE próximo de 2300).
Depois da morte de Lênin, a antiga capital do império russo foi rebatizada com o
nome de Leningrado. Hoje, a União Soviética não existe mais. O socialismo foi
destroçado. A própria cidade de Leningrado voltou a ser chamada pelo nome
antigo, São Petersburgo. Apesar dessas mudanças, o xadrez conservou os nomes
antigos. Assim, ainda damos o nome de "Leningrado" para inúmeras linhas de
abertura, como na Defesa Nimzoíndia e da Defesa Holandesa, por exemplo.
57.
Incompatibilidade.
Como se
sabe, um bispo que corre nas casas brancas jamais poderá capturar ou ser
capturado por um bispo adversário que corre nas casas pretas. Nunca se
encostarão. São os bispos de cores opostas. Quando Boris Spassky se divorciou da
primeira mulher, explicou os acontecimentos com uma comparação: "Eu e minha
ex-esposa éramos como bispos de cores opostas."
58.
Ianques.
Os Estados
Unidos da América (EUA) têm sido um país de extraordinários jogadores de xadrez.
O primeiro deles foi Paul Morphy, que em 1857-58 derrotou com facilidade os
maiores jogadores europeus. Poderia ter sido considerado o campeão mundial, mas
na época não existia esse título. No final do século XIX, destacou-se Nelson
Pillsbury, que estava incluído no grupo dos cinco melhores do planeta (depois de
Lasker, próximo de Steinitz, Tarrasch, Tchigorin e Maróczy). Depois, foi a vez
de F. Marshall, perigosíssimo jogador de ataque, um dos raros mestres que
conseguiram vencer Capablanca mais de uma vez. Nos anos 1930s, os EUA eram
provavelmente o país mais destacado do xadrez mundial. A equipe norte-americana
venceu inúmeras olimpíadas de xadrez. Seus principais jogadores, Reshewsky e R.
Fine, eram considerados seriíssimos candidatos ao título mundial e ganharam
vários torneios na frente dos mais fortes GMs europeus. Nos anos 1960s, surgiu a
estrela brilhante e genial de Robert Fischer, campeão mundial de 1972-1975.
Infelizmente, Fischer se retirou precocemente do xadrez. Porém outros jogadores
representaram os EUA e alcançaram elevados postos no xadrez mundial: R. Byrne,
Christiansen, Seirawan e, recentemente, o russo naturalizado norte-americano
Gata Kamsky.
59.
Melhore
comigo.
Por duas
décadas, o norte-americano Samuel Reshewsky esteve na lista dos dez melhores do
mundo. Com certeza, era o mais forte jogador do planeta fora da URSS. Em
partidas individuais, venceu quase todos os campeões mundiais, incluindo
Capablanca, Alekhine, Botvinnik, Smyslov e Fischer. Quando um amador perguntava
ao grande Reshewsky qual a melhor maneira de progredir, ele sempre respondia:
"Estude minhas partidas." E quem se atreveria e dizer que não era um excelente
conselho?
60.
Soviéticos e
russos.
A União
Soviética (URSS) era um país que agrupava dezenas de povos diferentes, sendo que
os russos formavam o contingente mais numeroso. Constitui um grave erro chamar
os soviéticos de "russos". O próprio J. Stálin, que governou com mão de ferro a
URSS, não era russo, era georgiano. Seu sucessor, Nikita Krutchev, tinha nascido
numa aldeia ucraniana. Inúmeros jogadores de xadrez soviéticos também não eram
russos. Por exemplo, Keres era estoniano, Petrosian era armênio, Geller,
Beliavsky e Ivanchuk nasceram na Ucrânia, Tal era da Letônia, Polugaevsky nasceu
na Bielorússia (que é outra república, separada da Rússia), Gelfand também é
natural da Bielorússia soviética, Vaganian é armênio, Azmaiparashvili veio da
Geórgia, e V. Gravikov nasceu na Lituânia. O próprio Kaspárov nasceu na
Adjerbaijão. A rigor, os únicos campeões nascidos na Rússia foram Botvinnik,
Spassky, Smyslov, Karpov e Kramnik. Mas se quisermos enriquecer mais ainda nosso
caldeirão de povos e culturas, seriam bom acrescentar que os russos Botvinnik,
Spassky e Smyslov também descendiam de judeus.
61.
Damiano
atual.
O português
Damiano publicou em latim seu Tratado de
Xadrez em 1512, logo traduzido para outros idiomas. Durante dois séculos, a
obra foi reimpressa várias vezes na Itália, na França e na Inglaterra. Alguns de
seus conselhos são completamente atuais: "Não faça nenhum movimento que não
tenha um objetivo claro e definido", "Não jogue com pressa", "Quando você tiver
encontrado um bom movimento, procure para ver se não encontra um que seja melhor
ainda." Alguns manuais chamam a seqüência 1.e4 e5 2.Cf3 f6 de "defesa damiano",
o que é uma grande injustiça porque no livro do mestre português está dito
explicitamente que a melhor resposta para as pretas é 1...Cc6.
62.
Petrosian e
a Armênia.
O soviético
T. Petrosian nasceu e viveu na Armênia, uma das repúblicas que compunham a
antiga URSS. Quando esteve em Buenos Aires em 1971, foi recebido com carinho
pela comunidade armênia argentina. Alguns duvidaram que ele, cidadão da URSS,
que falava perfeitamente o idioma russo (aprendido em todas as escolas do país,
como primeira ou segunda língua), pudesse falar em armênio. Mas quando Petrosian
discursou com um armênio perfeito, sem sotaques, foi aplaudido com entusiasmo
por seus fãs e compatriotas.
63.
Jogo de
damas.
Poucas
perguntas podem ser tão irritantes quanto "Você joga xadrez? Então deve jogar damas também." Nada contra o jogo de damas, mas é óbvio que existe uma grande
diferença entre os dois esportes, ambos de raciocínio. O xadrez é evidentemente
mais complexo. Entretanto, houve alguns fortes jogadores de xadrez que também
jogavam damas. Pillsbury, o GM norte-americano foi, abaixo de Lasker, um dos
cinco melhores do mundo no final do século XIX (ao lado de Steinitz, Tarrasch,
Tchigorin e Maróczy). Esse mesmo Pillsbury destacou-se como um dos dez melhores
jogadores de damas dos EUA. O alemão Anderssen, talvez o melhor do mundo por
volta de 1865, também foi campeão de damas em seu país. O fortíssimo jogador
soviético Nezhmetdinov foi campeão russo de xadrez e de damas!
64.
Finais
impossíveis.
O uso de
poderosos computadores na análise de finais com pouquíssimas peças (os dois reis
+ duas ou três peças/peões) desvendou alguns mistérios e revelou interessantes
surpresas. Por exemplo, nas posições normais, rei + dois bispos conseguem dar
mate em rei + cavalo (na posição mais complicada, o mate forçado demora 66
lances). Rei + Dama vencem contra Rei + 2 bispos, mas Rei + Dama não conseguem
vencer 2 cavalos. Rei + Dama vencem 2 bispos, mas nas posições mais difíceis,
são necessários 71 lances para dar mate. O conhecimento desse fato levou ao
questionamento da regra do empate depois de 50 lances sem movimento de peão nem
captura de peça. Incrível mesmo é o final de Rei + Torre + Bispo contra Rei + 2
cavalos. Note bem, Dama contra dois cavalos dá empate, mas Torre + Bispo (que
valem menos do que uma dama) vencem o final contra 2 cavalos! Final dificílimo.
Em algumas posições, o mate inevitável acontece depois de 222 lances. Repetimos:
R+T+B x R+ C+C pode terminar com mate forçado em 222 lances!
65.
Máquinas de
guerra.
Enxadristas
que criaram equipamentos bélicos. Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918),
o patriota Emanuel Lasker apresentou projetos de máquinas militares para o
Exército alemão. Durante a Segunda Guerra (1939-1945), Alexander Kotov inventou
um tipo de morteiro muito útil para o exército soviético na sua luta contra o
invasor nazista. Os mesmos nazistas que haviam confiscado os bens de Lasker e o
forçaram ao exílio, acusado de "corromper a Alemanha" por ser judeu.
66. Magiares.
A Hungria é
um país de extraordinários enxadristas. Na passagem do século XIX para o XX
destacou-se G. Maróczy, que no auge da carreira estava no mesmo nível de
Rubinstein, Tarrasch e Schlechter. No final do século XIX, R. Charousek era uma
enorme promessa e venceu grandes torneios, mas faleceu com apenas 27 anos, de
tuberculose. Nos anos 1920s, Breyer, que também morreu antes de chegar à
velhice, fez parte do grupo "hipermodernista" que inovou a estratégia do xadrez.
Nos anos 1950s/1960s, destacou-se L. Szabo, candidato ao título mundial e um dos
raros jogadores capaz de fazer partidas equilibradas com os GMs soviéticos. Nos
anos 1960s/70/80s, Lajos Portisch tornou-se um dos cinco melhores do mundo,
inúmeras vezes candidato ao título mundial. Recentemente, destacou-se a genial
Judite Polgar, a primeira mulher a figurar na lista dos dez maiores jogadores do
planeta. Outro nome húngaro do xadrez atual é Peter Leko, que no ínício do
século XXI
67. Hein?! Samuel Reshewsky tinha 74 anos
quando chegou em 2o lugar no Open de Lugano 1985, apenas 1/2 ponto
atrás do soviético Tukmakov. Neste torneio, jogaram GMs do nível de J.Nunn, A.
Sokolov, Z. Ribli, G. Sosonko, G. Sax, K. Spragett, estrelas dos anos 1980s. Na
última rodada, Reshewsky enfrentou o fortíssimo GM inglês N. Short, que naquele
mesmo ano tornar-se-ia o primeiro inglês a se classificar para o Torneio de
Candidatos, o grupo selecionadíssimo que disputava o direito de desafiar o
campeão mundial. Nos melhores anos, Reshewsky havia tomado parte de alguns
torneios de candidatos. Os bons tempos tinham passado, mas ele ainda era capaz
de reviver algumas da antigas glórias, como fez neste torneio de 1985. Por causa
da idade, Reshewsky já não escutava direito. Então, no momento em enfrentava o
jovem astro britânico, aconteceu o seguinte diálogo, testemunhado pelo GM J.
Nunn: RESHEWSKY: "Você está jogando pela vitória?" SHORT: "Isso é uma proposta
de empate?" RESHEWSKY: "Não consigo ouvir o que você diz" SHORT (mais alto):
"Você está propondo o empate?" RESHEWSKY: "Isso é uma oferta de empate?" SHORT:
"Não!" Reshewsky não ouvia direito, mas continuava enxergando muito bem e
conseguiu empatar com Short, que assim perdeu o primeiro lugar no
torneio.
68. Café de La Régence. Durante os séculos
XVIII e XIX, funcionava, em Paris, o famoso Café de La Régence, o mais conhecido
Clube de Xadrez do Mundo. Ele era, para o Xadrez, o que é hoje Wimblendon para o
tênis, Maracanã para o futebol, Madison Square Garden para o box e o Scala de
Milão para a ópera. As maiores personalidades mundiais do Xadrez, lá se
exibiram: Legal, Philidor, Stamma, Lá Bourdonnais, Deschapelles, Saint-Aimant,
Kieseritzky e Harwitz. Morphy, lá jogou várias sessões de simultâneas às cegas.
Mas vários famosos em outras áreas também lá disputaram suas partidas amistosas:
Richelieu, Diderot, Robespierr, Napoleão, Voltaire, J.J. Rousseau e outros...
Mas um dos fatos mais marcantes do famoso Café envolveu dois amadores anônimos
cujos nomes foram esquecidos... Dois velhos amigos jogavam, diariamente, suas
partidas amistosas no Café. Certa ocasião, por razões desconhecidas, os dois se
desentenderam e, embora velhos amigos, depois de áspera discussão, um deles,
perdendo a "esportiva", pegou seu próprio Rei e jogou violentamente contra a
cabeça do adversário, ferindo-o fazendo sangrar! Depois de socorrido e serenados
os ânimos, os freqüentadores resolveram nomear uma comissão de velhos
enxadristas para decidir o que fazer, diante de fato tão incompatível com a
nobreza do jogo de Xadrez. Após horas de deliberações, o Júri deu a sentença:
"Para uma falta inusitada e não prevista nos Regulamentos do Xadrez, uma pena
também inusitada: o agressor fica proibido de rocar durante um ano!".
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