Entrevistado : Antônio G. S. Fagundes ( Sócio nº 140 do CXV)

Entrevistadores: Luciano Rigolin e Herley Guimarães

Em: Setembro/2002.

Ocupando a quarta posição no último ranking divulgado com rating de 1924, Fagundes é o primeiro colocado na Pirâmide há quase nove meses e está na liderança na Fase Final da Taça CXV 2002, podendo vir a se consagrar o terceiro Campeão Absoluto do CXV. O cartel de Fagundes é de 22 derrotas, 24 empates e 112 vitórias, sendo o sócio com maior número de vitórias no clube.

Além de todas essas credenciais, comprovando que é bom no xadrez tanto quanto o seu homônimo famoso atua nas novelas da Globo, Fagundes também já foi diretor no CXV, ajudando o clube numa das mais criticas fase, quando ocorreram as trocas na Direção. A sua participação foi de suma importância.

Nesta entrevista, Fagundes conta um pouco da sua vida pessoal e enxadristica, tanto dentro como fora do CXV, mostrando uma forma um pouco inusitada de iniciar no xadrez. Ele nunca enfrentou um adversário frente a frente. Somente livros ou com a internet no meio. Conheça um pouco mais de Antônio Fagundes.

1. Fale um pouco de você: hobby, profissão, idade, onde mora, quanto tempo
joga xadrez e como começou, etc.?

     Tenho 49 anos (até o dia 06/10, quando passarei a ser cinqüentão, não acredito!). Moro em Porto Alegre (RS) desde 1973, quando aos 20 anos fugi da cidade onde me criei, Palmeira das Missões (digo fugi porque fugi mesmo, só com o dinheiro da passagem, pois, na época, em plena ditadura, sendo de família humilde só se poderia conseguir um emprego que preste se submetendo aos donos da cidade, e aí tem política no meio, e eu, socialista rebelde, imagine que ia me submeter). Cursei diversas faculdades, aqui em Porto Alegre, mas, autodidata desde menino,  não tive paciência para concluir nenhuma. Para não dizer que não tenho curso superior,   me formei bacharel em Ciências Contábeis, para ter um ganha-pão. Atualmente tenho uma pequena empresa de auditoria externa, com registro na Comissão de Valores Mobiliários. Desde criança fui aconselhado a jogar xadrez, os professores achavam que eu tinha bom raciocínio, isto depois de ser quase expulso de um colégio, por "louco", mas somente li o primeiro livro (Pachman ou Cherta, não recordo qual o primeiro, edição espanhola da Coleccion Escaques) aos 33 anos, num momento crucial da minha vida, onde ou passava a quebrar a cabeça com o xadrez ou o faria de outro modo. Então, também sou muito grato ao xadrez, nele coloquei o meu estado de guerra contra o mundo.


 2. Costuma jogar xadrez além do postal?

      Não, não tenho tempo e de certa forma ainda sou um bicho do mato, não gosto de aparições públicas nem da politicagem que envolve estes e outros eventos. Sempre fui muito tímido, também. Aliás, jamais joguei com alguém sentado à minha frente, apenas com os livros,  intermináveis noites, até recentemente descobrir a Internet, quando entrei no CXV.


 3. Como conheceu o CXV?

     Conheci o CXV através de um sítio de busca, pela palavra "xadrez", lógico, mas não recordo qual sítio de busca foi esse.


 4. Qual sua motivação de participar do CXV? Aprender, praticar ou competir?

      Creio que talvez por tudo isso, mas acima de tudo pela paixão, o xadrez é o negócio mais incrível, mais fascinante,  que existe. Só de imaginar que o homem vai ao espaço, traduz o DNA,  etc., e ainda não conseguiu um computador que supere a mente humana (que o diga a turma do Deep Blue, que venceu uma de Kasparov de maneira muito estranha, até eu enxerguei na hora o lance que empatava - consta que um espanhol levantou-se na platéia e começou a gritar o lance, tal a surpresa ao ver o russo abandonar).


 5. Como efetua os estudos do xadrez?

      Tenho muitos livros. Levei anos viajando muito, e a cada viagem voltava com a mala cheia. O jeito é seguir as propostas de variantes, e haja tabuleiro para tantas,  tentando manter a calma. Atualmente está uma beleza, pois a rede mundial permite que se tenha acesso às partidas dos campeões e do pessoal do primeiro time (sou fã de todos!) instantaneamente. Mas tenho muita dificuldade ainda, decididamente sofreria muito se participasse de torneios ao vivo, me ponho muito excitado. Evidentemente, onde moro e trabalho há tabuleiros em todos os cantos, até nas paredes. Não há nada melhor do que examinar uma posição ouvindo Mozart, com golinhos de uísque (calma aí, moçada, isto é para coroas como eu, e olha lá), olhando para a parede à frente...


 6. Qual adversário considerou mais difícil em torneios pelo CXV?

      São muitos. Qualquer um que ocupe os 20 ou 30 primeiros postos do ranking é uma pedreira.


 7. Qual partida considera a sua melhor no CXV? Por quê?

      Tenho muitas partidas boas, umas perdidas, outras vencidas, é difícil destacar uma. Lembro bem de uma perdida, onde na estréia no CXV apanhei do argentino Alejo Torres (notável enxadrista, aliás), por inseguro,  numa partida que poderia ter  vencido.


 8. O que você acha que poderia ser acrescentado ou melhorado no CXV?

      Acho que o CXV está excelente, não dá para exigir mais da turma que o dirige (graciosamente), sabendo-se da dificuldade de tempo que todos têm.


9. Para finalizar, dê uma palavrinha ao pessoal que está iniciando no
xadrez...

Apenas dizer que todos os amantes do xadrez são, a meu ver, uns privilegiados, seres superiores, profundos filósofos ainda que jamais tenham estudado filosofia, que já foi (ainda é?) a mãe de todas as ciências. Que tal, é pouco?  Se não é isso, anda perto, tenho dificuldade em definir uma das coisas mais maravilhosas do mundo, quiçá só abaixo da criação.